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Capítulo 5: Karma

  — Vou levá-lo. Mas por dois soldos e meio — declarou solenemente Ezra.

  — O-o quê? Dois soldos e meio? — Repetiu o velho com o cenho franzido, como se temesse que sua audi??o o tivesse pregado uma pe?a.

  — Exatamente. Vou levá-lo somente por dois soldos e meio. Ele está recheado de hematomas, feridas de chicote e, francamente, é só pele e osso. Cinco soldos é o pre?o de um kaleorino forte e saudável. Este aqui… está longe desses requisitos.

  Ezra falou com sua voz melódica habitual, pontuando o raciocínio com gestos elegantes da m?o — como se estivesse descrevendo uma receita ou escolhendo um bom vinho.

  — Hm… o que o senhor acha de três soldos? é o melhor pre?o que posso oferecer. — disse o velho, tragando o cachimbo com um ar de resigna??o.

  — Certo, esse pre?o me parece justo o suficiente. Victor!

  O alquimista fez um leve gesto com os dedos, e um de seus guardas subiu na carruagem e retornou com uma bolsa de couro tilintante. Ezra abriu-a e retirou três moedas prateadas, todas com um leve formato dodecagonal e um pequeno furo circular no centro.

  Mesmo à distancia, Micah p?de ver o brilho limpo da prata refletindo o sol da tarde. No anverso da moeda, logo abaixo do furo, lia-se o número “12”, e acima, as letras “C.O.B.”, gravadas com tra?os firmes e fundos. O reverso apresentava algum tipo de flor semelhante à um cálice ou uma trombeta, rodeada por inscri??es ilegíveis aquela distancia.

  Ezra entregou as três moedas diretamente nas m?os do velho, que as examinou como se fossem relíquias, depois assentiu, satisfeito. E com isso, o ruivo foi oficialmente comprado.

  — Foi uma honra fazer negócio com o senhor, Alquimista Real. — o velho estendeu sua m?o, e Ezra a apertou com firmeza, mantendo o mesmo sorriso solene que parecia nunca sair de seu rosto.

  Micah ent?o foi acorrentado no pesco?o e nos punhos, a chave das correntes foi dada ao alquimista.

  — Acompanhe-o ao Cartório Servil. — Ordenou ao mesmo escravagista que trouxe Micah.

  — N?o há necessidade. — Interrompeu Ezra.

  — Huh? O senhor… n?o vai registrá-lo? — Perguntou o velho em um tom baixo, como se estivesse falando de um crime.

  — Vamos manter isso entre nós, cavalheiros. Certo, senhor? — Disse Ezra em um tom baixo e sério, mantendo contato visual calmo enquanto discretamente soltava algumas moedas em seu bolso.

  Por um momento o velho cerrou seus olhos, antes de suas pupilas se dilatarem com o novo peso em seu bolso, ele sentiu as inscri??es dos soldos com os dedos e respondeu:

  — O senhor está certíssimo, nossa transa??o permanecerá entre nós.

  — ótimo. Agora, se me der licen?a, há outros assuntos que requerem minha aten??o até o final do dia. Tenha um boa noite, adeus. — Concluiu Ezra, levando o ruivo consigo ao retornar à carruagem.

  Dezenas de perguntas inundavam a mente de Micah enquanto ele entrava no carro, ele estava completamente atordoado após presenciar a transa??o no qual o objeto de compra era ele mesmo.

  “Quem é esse que acabou de me comprar? Oque é um “Alquimista Real”? E porque eu n?o fui registrado nesse “Cartório Servil"? Além disso, tenho quase certeza que acabei de presenciar um suborno…”

  Sem meio de responder as quest?es que tanto apertavam seu cora??o, ele respirou fundo para se acalmar, e resolver focar na única coisa que poderia fazer agora, que era observar e adquirir o máximo de informa??es.

  O interior da carruagem era pequeno, mas aconchegante, os bancos eram estofados e macios como seda, pequenas cortinas persianas cobriam a janela esquerda, permitindo que a luz laranja do sol poente entrasse somente pela direita, deixando o ambiente confortável aos olhos, uma lamparina apagada estava pendurada no teto.

  — Sente-se. — Ordenou Ezra, Micah obedeceu.

  — Convenhamos que você n?o precisa mais desses, concorda? — Adicionou o alquimista em sua voz elegante, antes de tirar uma chave do bolso e liberar o escravo de suas algemas.

  — O-o quê…?

  Micah mexeu seus punhos libertos, olhando para eles por um momento, antes de encarar Ezra com um olhar meio confuso, meio desconfiado. Ent?o olhou para os guardas sentados ao seu lado, ambos mantendo uma vigia inabalável sobre ele, como se sincronizassem até mesmo o piscar entre as frestas dos elmos, para que ele n?o passasse um único milissegundo sem ser observado... e finalmente entendeu o descaso com as algemas. A carruagem come?ou a se movimentar.

  Ezra de repente sentou-se no banco ao lado de Micah, ele abriu um compartimento abaixo do assento e de lá retirou uma maleta de madeira, quando a destrancou, o som dos fechos ecoou como o estalo de uma senten?a. Dentro, n?o havia moedas, nem documentos, nem ferramentas de tortura visíveis — mas sim instrumentos cirúrgicos: pin?as, linhas de sutura, frascos de vidro com diversos líquidos, agulhas longas e afiadas, bisturis reluzentes e rolos de gaze cuidadosamente dobrados. A maleta exalava o cheiro forte e penetrante de álcool, canfora e ferro velho.

  Micah arregalou os olhos, seu corpo enrijeceu instintivamente.

  — Relaxe — disse Ezra com suavidade, enquanto trocava suas luvas brancas por outras de couro escuro. — Eu só quero garantir que você n?o apodre?a antes da hora. Vire-se.

  Ele pegou um pequeno frasco ambar com um líquido incolor e o despejou sobre um pano de linho branco.

  — Isso vai arder. Mas só por fora. — Murmurou, quase como um pai tentando acalmar uma crian?a antes da vacina.

  Micah abriu a boca para dizer algo, mas mordeu os lábios ao sentir a flanela pressionar as costas. Um jato de dor percorreu seu corpo como fogo líquido — ele estremeceu. Ezra, por sua vez, observava com um olhar curioso demais para quem estava apenas “ajudando”.

  — Interessante... o padr?o das cicatrizes é irregular. Isso foi feito por prazer, n?o disciplina. — comentou com a calma de um botanico descrevendo folhas raras. — Isso, combinado à desnutri??o, enfraquece a resistência da Imagem e da Alma. Tsk, esses caipiras realmente n?o sabem cuidar de boas mercadorias.

  Micah se encolheu.

  — Você sempre fala assim com os escravos?

  Ezra sorriu, sem desviar os olhos da costura que come?ava a fazer sobre um corte mais profundo.

  — N?o. Só com os interessantes.

  Ele puxou o fio com um pequeno estalido seco da pele sendo fechada. Depois limpou o sangue que escorria com um outro pano, agora carmesim nas bordas.

  — Agora... o rosto.

  Micah hesitou, mas Ezra já estava com um pequeno espelho na m?o, mostrando-lhe o corte acima da sobrancelha esquerda — uma lembran?a dolorosa da manopla que o atingira ontem.

  — Esse precisa de três pontos. Dois, se você quiser uma cicatriz charmosa. Quatro, se quiser que ela desapare?a. Qual prefere?

  — Eu prefiro voltar pra casa. — Resmungou Micah por impulso.

  Ezra n?o respondeu de imediato. Apenas limpou o ferimento com uma delicadeza desconcertante, como se estivesse restaurando uma porcelana rara.

  — Pois bem… vamos come?ar com três pontos. A cicatriz pode te lembrar que você ainda está inteiro.

  A agulha brilhou à luz da lamparina enquanto o carro balan?ava suavemente sobre os paralelepípedos. Micah sentiu a primeira picada. Logo, o alquimista deu o último ponto com a rapidez de um expert.

  — Pronto, terminamos, você pode vestir sua camisa agora. — Concluiu Ezra, enquanto colocava suas luvas brancas novamente e guardava os instrumentos.

  Micah tocou em sua testa por um momento, sentindo os pontos, antes de tirar sua camisa de dentro da bermuda e vesti-la. Ele n?o sabia se o agradecia ou tentava a sorte pulando pela janela.

  A maleta foi trancada novamente e guardada no compartimento do assento. A mesma m?o que o tratou anteriormente, agora enluvada de branco, se estendeu a Micah, seu olhar voltou para Ezra, que sorria solenemente.

  — Creio que n?o me introduzi ainda, perd?o pela minha falta de educa??o. Sou Ezra Velliphisto, Alquimista Real do Reino de Luther. — Micah por um momento hesitou em apertar sua m?o, mas sentiu o olhar dos guardas cerrar, no fim, ele o cumprimentou de volta.

  — Micah… Micah Alcantara do Espírito-Santo…

  — Que nome peculiar, eu já me encontrei com muitos kaleorinos durante minha vida, mas nunca vi um com um nome t?o único. Considere isso um elogio. — Comentou Ezra, seu sorriso alargando por um momento, mas nunca alcan?ando os olhos. — Você sabe o que significa?

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  Uma memória antiga veio à mente de Micah, uma que ele havia esquecido à muito tempo, mas por algum motivo, ele se lembrou.

  …

  14 anos atrás

  A televis?o velha chiava ao fundo, passando algum programa evangélico que a antena mal conseguia captar. A luz amarelada do abajur torto deixava tudo na sala com cara de sonho antigo. A casa era simples — parede descascando, sofá manchado e uma estante apertada onde livros de autoajuda, espiritismo e filosofia se amontoavam ao lado de uma imagem da Santa Maria.

  Eu devia ter uns dez anos. Usava minha camiseta surrada de algum super-herói aranha e arrastava os chinelos barulhentos pelo ch?o. Tinha um caderno na m?o — daqueles baratinhos, da promo??o do mercado — com as pontas todas comidas. Dava pra ver a ansiedade mastigada ali.

  Parei na frente da minha m?e. Ela estava no sofá, concentrada, costurando uma bermuda minha. O cabelo dela preso num coque meio torto, os olhos cansados com aquelas olheiras que só m?e solo tem. Mas mesmo assim... mesmo assim ela era bonita. De um jeito calmo. Jovem. Forte.

  — M?e... — chamei, baixinho, como quem está com medo de perguntar.

  — Fala, filho — respondeu ela, sem tirar os olhos da linha.

  — Por que... por que você me deu esse nome? Micah? Todo mundo na escola diz que é estranho.

  Ela parou. O som da TV ficou mais alto de repente, como se o mundo também tivesse feito silêncio. Ent?o ela me olhou. Um olhar cheio de coisa que eu n?o entendia direito na época — parecia saudade, parecia fé, parecia dor.

  — Porque... — ela respirou fundo — Micah significa “Aquele que é como Deus.”

  Meus olhos arregalaram.

  — Tipo... Jesus?

  Ela riu baixinho e balan?ou a cabe?a.

  — N?o, bobinho. N?o é que você seja Deus. é que... você foi uma resposta. Quando todo mundo dizia que eu devia te tirar de mim, que você ia arruinar minha vida, que era impossível... eu só conseguia ouvir aqui dentro — ela apontou pro peito — que você era um presente. Um presente do céu... ou de algum lugar além.

  Fiquei quieto. Aquilo mexeu comigo. Eu n?o sabia o que dizer.

  — Mas... se o papai foi embora... por que você escolheu esse nome mesmo assim?

  Ela baixou os olhos, pensou um pouco.

  — Porque eu n?o escolhi por ele. Escolhi por você. Seu nome é um lembrete. Um lembrete de que você n?o é um erro. N?o importa o que digam.

  Ela esticou a m?o e bagun?ou meu cabelo. O toque dela era leve, mas dizia muito mais do que qualquer palavra.

  — Você é um milagre, Micah. Um dia... o mundo vai entender isso.

  …

  De volta ao presente.

  Micah piscou. Seu olhar distante se perdeu entre as dobras da carruagem. Os olhos voltaram lentamente ao rosto de Ezra, que ainda o observava com aquele mesmo sorriso educado demais.

  — “Aquele que é como Deus”... — murmurou, quase sem pensar.

  Ezra arqueou uma sobrancelha. Seu sorriso se fechou levemente, como se algo nele tivesse ficado intrigado.

  — Hm. Que ousado, quase uma blasfêmia. — disse ele, com um tom enigmático. Ent?o seu sorriso alargou novamente. — é melhor n?o dizer isso para mais ninguém aqui, a n?o ser que esteja disposto a virar churrasquinho.

  E ent?o, como se tivesse sentido algo... Ezra desviou os olhos por um instante e murmurou algo para si, inaudível, antes de mudar o assunto.

  — E essa… camisa? — perguntou, inclinando levemente a cabe?a enquanto seus olhos lilases examinavam o tecido com um brilho de curiosidade quase infantil. — N?o é linho. Tampouco seda. Tem um toque… estranho. Quase como um tecido que n?o deveria existir.

  Ezra estendeu a m?o e beliscou a manga com delicadeza, friccionando entre os dedos com a precis?o de um alfaiate obcecado ou um taxidermista experiente.

  — E esse símbolo… três letras, um bras?o...? Um bras?o de guerra tribal? Ou de alguma guilda esportiva ritualística? Fascinante. As cores s?o bem escolhidas. Vermelho, preto e branco. Três contrastes. Três for?as em tens?o. — Murmurou, mais para si do que para Micah. — é um uniforme?

  Micah piscou, confuso por um instante. Era a primeira vez em muito tempo que alguém falava da camisa. Ele olhou para o escudo do seu time favorito sobre o peito — puído, rasgado, sujo de sangue e terra, mas ainda ali. Ainda seu.

  — é… de um time. De futebol.

  Ezra o encarou como se a palavra fosse um enigma oculto em alguma língua morta.

  — Fute-bol. Pé e bola… uma dan?a de combate, talvez? Ou uma simula??o de guerra em grupos? — Ele sorriu. — N?o importa. Esse material… n?o é natural. Ele repele o calor, mas n?o absorve a umidade. Ele estica. Um tecido sintético…, mas sem alquimia visível. Nenhum fio com karma impregnado. — Ele viu uma etiqueta no colarinho da camisa — Poliéster…?

  Ele largou a manga, recostando-se lentamente. Seus olhos se arregalaram por um momento, ele encarou Micah, como se tivesse descoberto algo. No entanto, permaneceu quieto.

  Só ent?o Micah percebeu algo que teria visto à muito tempo se n?o fosse t?o desatento, preso à cintura dos guardas — e também de Ezra.

  Pequenas bolsas de couro, refor?adas com anéis de prata e runas gravadas à m?o, repousavam firmemente nos cintos. Cada uma delas carregava no mínimo três ou quatro cristais reluzentes, do tamanho de dedos quebrados. Eles n?o brilhavam como joias comuns; n?o... aquilo era outro tipo de luz. Uma luz interna, como se cada cristal carregasse um peda?o de trov?o domesticado, engaiolado em forma sólida.

  Micah piscou, intrigado. Os cristais tinham cores e formas diferentes:

  Alguns eram vermelhos escuros, como vinho misturado com ferrugem. Eles eram pontiagudos e afiados, como lascas de obsidiana.

  Outros, azulados translúcidos, pulsavam levemente, como se respirassem. Compostos de microestruturas cúbicas, semelhantes à pirita.

  — Isso é... — Micah come?ou a perguntar, mas Ezra já o observava, como se esperasse exatamente por essa rea??o.

  — Cristais de Karma. — respondeu o alquimista, casual, quase distraído enquanto ajeitava uma dobra de sua capa bronzeada. — Reagentes alquímicos de alto nível. Ainda em fase de testes... mas funcionam bem o bastante para manter meus acompanhantes vivos. E obedientes.

  Um dos guardas cruzou os bra?os e inclinou levemente a cabe?a em sinal de respeito, como se o comentário fosse, na verdade, um elogio.

  Ezra ent?o retirou dois cristais — Um azul e um vermelho — da bolsa e o ergueu diante da luz ambar da lamparina. O brilho deles pulsava mais forte ao contato com sua m?o.

  — Isso aqui pode alimentar um escudo de prote??o por até cinco minutos, ou acelerar a cura de enfermidades consideravelmente. — Comentou enquanto mostrava o cristal azulado. Ent?o estendeu o avermelhado. — Enquanto esse pode incendiar uma taverna inteira, ou aumentar suas capacidades físicas exponencialmente, por um tempo limitado, claro, dependendo de como você deseja liberar a energia. — Ele devolveu os cristais à bolsa. — E essa é só uma vers?o instável. Imagine quando eu concluir os estágios de purifica??o... Será possível destruir quarteir?es inteiros, ou até mesmo regenerar membros por completo com um único cristal… empolgante, n?o?

  Micah engoliu seco enquanto escuta ao discurso emocionado do alquimista, n?o sabia o que o assustava mais: a ideia de alguém carregar poder explosivo no bolso como quem leva um chaveiro, ou o brilho febril nos olhos de Ezra enquanto falava daquilo como uma crian?a que ganhou um laboratório de disseca??o de almas de aniversário.

  Micah manteve o olhar nos cristais por mais alguns segundos, antes de sussurrar:

  — Karma...?

  Ezra virou-se lentamente para ele, como se estivesse esperando exatamente essa pergunta. O sorriso retornou aos seus lábios, mas havia algo novo ali — um brilho de excita??o genuína, quase... acadêmica.

  — Ah, finalmente. — disse ele, com o entusiasmo contido de um professor prestes a dar sua aula favorita. — Você é bem ignorante, até mesmo para um kaleorino, mas já sabia que perguntaria isto. Karma, meu caro Micah, é o trabalho da minha vida, é a moeda invisível que rege o mundo inteiro. E n?o falo só deste mundo, diga-se de passagem.

  Ele cruzou uma perna sobre a outra, ajeitou os punhos da meia capa e continuou:

  — Tudo o que você faz — tudo mesmo — desde o momento em que esteve no ventre de sua m?e, gera um rastro. Um tipo de eco espiritual. Uma ressonancia. Seja uma boa a??o ou um ato vil, isso imprime uma marca na sua alma, e essa marca... vibra. Reage. Acumula. O Karma é essa substancia. Invisível para a maioria. Mas com o despertar, com treino, com conhecimento... — ele tocou levemente na bolsa de cristais. — Pode-se manipulá-lo. Solidificá-lo. Usá-lo.

  Micah piscou devagar. Seu olhar saltava entre os cristais, os guardas, e o sorriso educado demais de Ezra.

  — Ent?o... isso é tipo... energia? Como... chakra? Ki? Mana? — Chutou Micah, usando seu conhecimento de otaku como referência.

  Ezra riu — um riso curto, musical, quase encantador. Mas frio.

  — N?o. Karma é mais que energia. é inten??o condensada. é o suco da alma reconstituída como instrumento. Esses cristais — ele bateu de leve na bolsa — n?o foram apenas “carregados”. Eles s?o fragmentos desse suco. De a??es passadas. De dores. De memórias. De pecados. E virtudes também, às vezes.

  Micah se recostou no assento, sentindo um leve arrepio. Era como se cada cristal estivesse sussurrando — n?o em palavras, mas em sentimentos presos, ainda latentes.

  — E… como você fez esses cristais...?

  Ezra ergueu uma sobrancelha. Deu outro riso frio antes de olhar para janela, o distrito burguês, antes abarrotado de pessoas, agora lentamente se isolava, se tornando sombrio, frio e escuro.

  — Bem, digamos que esta informa??o seja segredo de Estado. — Ele fez uma pausa, e ent?o, com um ar quase casual, completou: — Micah, você já despertou sua Imagem? Ou pelo menos tem uma no??o do nome dela?

  Micah arregalou os olhos.

  — Imagem...?

  Ezra sorriu. Dessa vez, de verdade.

  — Hm. Ent?o come?aremos do básico.

  A carruagem continuou deslizando pela noite de Edel-Füllhorn, e Micah sentiu, mesmo dentro daquela carruagem aconchegante, um frio na barriga, ele n?o pode explicar o porquê daquela sensa??o, mas sentiu um pressentimento horrível, a mesma sensa??o que sentiu… naquela noite. Algo aconteceria em breve, e n?o seria nada bom.

  — Veja, já estamos atravessando a Ponte Norte. — Comentou Ezra, reabrindo a cortina da janela esquerda para que Micah possa enxergar.

  Micah se aproximou cautelosamente da janela, ainda sentindo os pontos latejarem em sua testa. Quando olhou para fora, a vis?o o atingiu como um soco silencioso.

  A Ponte Norte era colossal — larga o bastante para quatro carruagens lado a lado, e ainda duas cal?adas, feita inteiramente de pedra calcária polida, com entalhes ao longo do corrim?o que lembravam padr?es espiralados, espinhosos... e estranhamente organicos. Ao centro, colunas se erguiam como dedos voltados ao céu, cada uma coroada por uma estátua de mármore negro, representando figuras encapuzadas com lan?as ou livros — os antigos Bispos de Edel-Füllhorn, como Ezra explicou em tom casual.

  A estrutura ligava o distrito burguês à Ilha Central, uma por??o de terra no meio do lago Vasselir, t?o perfeitamente circular que parecia ter sido desenhada com compasso por um deus obsessivo. Micah conseguia ver o reflexo da Cidadela do Duque nas águas escuras e imóveis — uma fortaleza de torres pálidas, que lembrava um castelo gótico fundido com um templo — e, mais adiante, a silhueta sagrada e monstruosa da Catedral de Füllhorn, com sua imensa torre central em espiral e vitrais que brilhavam como olhos abertos na escurid?o.

  O lago abaixo era calmo, mas profundo. Suas águas eram t?o paradas que pareciam feitas de tinta preta, e apenas o som ritmado dos cascos do cavalo quebrava o silêncio pesado que pairava ali. O reflexo das luzes vinda da Muralha Interna brilhavam com a passagem da carruagem, como se o próprio mundo estivesse desconfiado daquela travessia.

  Ezra acompanhou o olhar de Micah por um momento, em silêncio, depois disse:

  — Bonita, n?o? Mas... enganadora. A Ponte Norte foi construída para unir, mas hoje separa mais do que qualquer muro. De um lado, a burguesia barulhenta... do outro, os olhos do poder. Nobreza, fé, segredo. é como “Atravessar de um teatro para os bastidores.”, diria o infame Charbonpierre. — Ele sorriu de lado, como se dissesse uma piada que Micah n?o entenderia.

  Os guardas se entreolharam desconfortavelmente por um momento, como se dizer aquele nome, especialmente de forma t?o casual, molestasse o próprio ar que respiravam e enrijecesse seus pulm?es.

  Micah observava em silêncio. A ponte era linda, sim, mas n?o havia calor nela. Ela parecia… julgá-lo enquanto ele passava.

  Ezra ent?o acrescentou:

  — Depois que atravessarmos… as coisas come?am a mudar. Aten??o dobrada, Micah. E controle o que diz. Nem toda alma nessa ilha é feita de carne.

  Micah desviou o olhar da ponte e voltou a se encostar no assento, um nó crescente em seu est?mago. A sensa??o ruim piorava. Atravessar aquela ponte n?o era apenas cruzar um lago.

  Era entrar no território dos deuses. E dos monstros que fingem ser santos.

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