O Axedal come?ava sempre do mesmo jeito.
As ruas de Edel-Füllhorn acordavam alguns minutos mais cedo naquele dia. As oficinas abriam as portas pela metade. As janelas eram escoradas para deixar o ar entrar. O cheiro de p?o fresco misturava-se ao de incenso seco, queimado em pequenas vasilhas de metal penduradas nas fachadas.
Era o dia que as padarias e as tavernas tinham mais movimento. N?o por divers?o ou comilan?a, mas para as oferendas da comunidade.
A Pra?a Jardim do Mérito acordava ainda mais cedo, enchendo-se com comerciantes vendendo cerejas-do-cerrado, rosários, imagens e incensos. Mas, nessa manh?, nenhum deles ousava gritar por aten??o.
N?o era um dia de descanso.
N?o era um dia de divers?o.
Era um dia de alinhamento.
E Micah percebeu isso ainda deitado.
O som que o despertou n?o foi o de passos apressados nem de ordens militares, mas do enorme sino da catedral ao lado, um que obrigava todos da cidade à acordarem com exatamente três badaladas. Nada mais, nada menos.
Ele sentou em sua beliche — meio acordado, meio dormindo — ainda confuso enquanto olhava em volta.
Os soldados se arrumavam com rapidez, estavam com pressa para n?o se atrasarem à algo. Ao invés do uniforme militar típico, eles vestiam roupas completamente negras. N?o apenas uma pe?a de roupa preta obrigatória, mas cada aspecto de seus vestuários era tingido de escuro. Ninguém iniciava o treinamento e nenhum superior estava presente.
Dennisorfeu desceu da beliche de cima com um pulo, bocejando enquanto se espregui?ava languidamente.
— Bom dia, Miquéias. — Disse ele, vasculhando um armário próximo.
— Bom dia... Uh, o que tá acontecendo?
— Hoje é Axedal, dia de ir pra Igreja e fazer oferendas. — Ele p?s uma jaqueta desbotada sobre sua túnica, abotoando-a com agilidade. — Você nunca foi numa Igreja né? Olha, hoje n?o tem treinamento matinal, ent?o vou na Igreja do meu bairro com minha família e passar um tempo com eles lá em casa pra almo?ar. Se quiser cê pode ir junto.
Micah ficou uns segundos pensando. Ele n?o tinha mais nada pra fazer e se concordasse teria chances até de comer de gra?a.
— Tá, eu vou.
— ótimo! Usa isso aqui.
Sorfeu lan?ou alguma coisa na dire??o de Micah. Quando pegou no ar, ele viu que se tratava de um conjunto de roupas velho.
— é uma regra meio besta, eu sei, mas se n?o usar a cor da sua casta n?o deixam cê nem passar pelo port?o. — Explicou-se enquanto penteava seu cabelo com um gel de origem duvidosa, olhando-se num espelho de m?o. — Só se troca logo, se eu chegar atrasado minha irm? vai ficar chateada comigo o dia todo.
Assim que se arrumaram foram direto pra saída traseira, como todos os outros soldados e servos da Cidadela. Diferente dos nobres, que saíam pelo port?o principal da Cidadela, mas seguiam as mesmas regras de vestimenta, só que prateadas.
O dia estava ensolarado e um pouco abafado, n?o que o clima do Plano Cerrado mudasse muito
— E os outros dois? Eles n?o vem junto? — Perguntou Micah no caminho à Ponte Sul.
Sorfeu quase trope?ou enquanto encarava o corpo da mo?a que caminhava à frente deles, voltando sua aten??o ao companheiro como se nada tivesse acontecido.
— Ah, o Thona e o Asáimon? Bem, o Nathaniel n?o é muito de ir pra Igreja e o cabe?a de sinuca vai passar o dia ajudando na Catedral.
— Hum... — Micah acenou sutilmente em entendimento.
Houve alguns segundos de silêncio antes do bardo perguntar:
— Miquéias, me diz aí, como é o mundo que você veio?
— Que...? — Franziu o cenho. — Cara, que tipo de pergunta é essa? O que você quer que eu responda?
— Ah, sei lá. Eu nunca tive a oportunidade de falar com alguém de outro mundo antes. — Ele olhou pra cima, co?ando o queixo. — O céu por exemplo. O céu de lá é igual o daqui?
O ruivo olhou pra cima também, diminuindo o passo.
— De dia eu acho que sim. é quase igual. Exceto que lá agente tem uma lua e n?o esse anel colossal. — apontou pro cintur?o.
— Ent?o o Saklas do seu mundo n?o morreu?!
— O que?
— Saklas. O Arconte. — Disse como se fosse senso comum. — Ele já foi inteiro uma vez. Ou é o que minha m?e disse. E o que a m?e dela disse... E a m?e da m?e dela... Bem, você entendeu.
— N?o, eu n?o entendi... “Arconte”? Como assim “morreu”?
— Ninguém sabe o porque exatamente, mas uns cem anos atrás Saklas se despeda?ou. — Sorfeu pegou o cantil preso ao seu cinto, tomando um gole do líquido, provavelmente alcoólico, antes de continuar. — Ele era o Arconte mais próximo de Pulmérica e dizem que ele regia as reencarna??es. Já vi gente falando até que antes dele morrer os Desalmados n?o eram um problema.
Micah olhou pro céu mais uma vez. Ele suspeitava da Lua, mas como alguém morto poderia tê-lo mandado para cá? Aquilo n?o fazia sentido. Quase nada nesse mundo fazia.
— Tá, mas o que é um “Arconte”?
Dennisorfeu deu uma olhada de canto para Micah. Ele se sentia conversando com uma crian?a do jardim de infancia.
— S?o o conselho de deuses que regem o mundo. Axis é um Arconte por exemplo, ele rege a ordem. Eu nunca tive que explicar isso pra ninguém antes, ent?o n?o sei entrar em detalhes. Pergunta pro Asáimon depois, ele deve saber explicar melhor do que eu.
— Tá...
Muitos transeuntes olhavam torto para Micah, alguns até com ódio intenso. Ent?o ele resolveu esconder seu cabelo ruivo por baixo do manto antes que alguém lhe desse um soco.
A Ponte Sul já estava aberta quando chegaram.
O fluxo era constante: famílias inteiras atravessando, grupos de trabalhadores, acólitos carregando cestos cobertos por panos simples. N?o havia pressa, mas também n?o havia dispers?o. As pessoas caminhavam como quem cumpre algo necessário, n?o opcional.
Dois guardas estavam posicionados no início da ponte, lan?as apoiadas no ch?o, elmos sob o bra?o.
Um deles conversava distraído com uma senhora idosa quando ergueu os olhos.
E congelou.
Micah percebeu o olhar antes de qualquer palavra.
N?o foi raiva imediata. Nem medo. Foi confus?o — crua, instintiva, quase infantil.
O guarda deu um passo à frente.
— …N?o.
A palavra escapou dele sem perceber.
Dennisorfeu continuou andando por mais dois passos antes de notar que Micah havia parado. Ele se virou.
— Hm?
O guarda se aproximou mais, ignorando completamente o bardo.
— Isso n?o é possível. — disse, agora mais alto, a m?o indo devagar até o cabo da lan?a. — Eu vi você.
Micah engoliu seco.
— Me viu…?
— Eu estava de servi?o naquela noite. — O tom dele tremia, mas n?o de fraqueza. De algo mal resolvido. — Na mans?o dos Halberst. Depois do colapso.
— Você… — o guarda estreitou os olhos, encarando o rosto por baixo do capuz. — Você era o rapaz ruivo. O que libertou aquela besta... VOCê MATOU MINHA IRM?!
O homem levantou a lan?a, apontando-a contra o pesco?o de Micah.
O ruivo recuou por instinto, trope?ando e caindo sentado no ch?o da ponte.
— E-espera! Eu... N?o fui eu que fiz isso! Eu juro!
Dennisorfeu deu um passo à frente, abrindo a boca.
— Amigo, deve estar havendo algum engano—
— CALA A BOCA! — cortou o guarda, sem sequer olhar para ele.
A aten??o dele voltou inteira para Micah.
Os pedestres pararam no port?o, juntando-se em volta da cena.
— Eu vi você queimar. — disse.
O barulho da ponte parecia ter diminuído ao redor deles.
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— E agora você voltou do inferno pra me assombrar, N?O é?! — gritou, as m?os trêmulas enquanto seus olhos lacrimejavam.
— Abaixa isso agora. — Ordenou Dennisorfeu, se aproximando deles.
O guarda ignorou.
Micah sentiu o est?mago afundar.
— Eu… eu n?o sei—
O guarda riu, balan?ando a cabe?a.
N?o foi um riso alto. Foi um som curto, quebrado.
— Minha irm? n?o abriu os olhos aquele dia.
O silêncio que se seguiu foi pesado demais para o Axedal.
— Ela trabalhava naquela casa. — continuou ele. — Cozinheira. N?o tinha nada a ver com política, com Despertos, com nada disso. Só… estava lá.
Ele respirou fundo, como se cada palavra precisasse de permiss?o pra sair.
— Quando o teto caiu, ela ficou presa na despensa. — engoliu em seco. — N?o teve fogo. N?o teve sangue. Só poeira. Só… ar faltando.
Micah sentiu o mundo estreitar.
— Eu sinto muito. — disse, imediatamente. — De verdade.
— Sente muito? SENTE MUITO?!—
— Chega.
Dennisorfeu segurou o cabo da lan?a com for?a, encarando o guarda com aquela mesma frieza profissional que Micah viu na Fronteira.
— Você mesmo viu. Aquele homem virou cinzas. Sinto muito pela sua irm?, mas este soldado n?o tem nada haver com isso.
O guarda viu os olhos dele, ent?o olhou para a multid?o, conflitado. Sorfeu ent?o soltou a lan?a e o guarda finalmente a abaixou.
— Me desculpe, Tenente. Eu n?o... pensei direito.
O bardo suspirou e seu olhar se tornou mais amigável, mas ainda duro.
— Você desobedeceu uma ordem direta e amea?ou um companheiro inocente. Eu deveria te dispensar por isso. Sabe disso, n?o é?
— Sim, senhor... — Murmurou, seu olhar baixo.
— Você está de luto, ent?o vou deixar essa passar. Mas n?o pense que vou tolerar esse tipo de atitude novamente, soldado. — Declarou Sorfeu, pondo a m?o sobre o ombro do guarda antes de ajudar Micah a se levantar.
Após a multid?o se dissipar o guarda apertou a m?o de Micah.
— Me desculpe, senhor...
— Micah. Me chame de Micah. — Disse com um sorriso sutil.
— Olaf.
Quando já estavam alguns metros adiante, Dennisorfeu falou em voz baixa:
— …Desculpa por isso.
Micah balan?ou a cabe?a.
— N?o. — respondeu. — Ele tinha o direito de perguntar.
Do outro lado da ponte, os sinos menores come?aram a tocar. Faltavam vinte minutos.
E atrás deles, Olaf permaneceu imóvel, olhando o rio abaixo da ponte, enquanto o Axedal seguia — indiferente, alinhado, cruelmente funcional.
— Miquéias, eu quero que você entenda uma coisa. — Disse Sorfeu em um tom baixo, sério. — Você n?o é mesmo homem naquela noite. Aquele Migrador morreu. A reputa??o interna do reino já n?o é das melhores, se descobrirem que recrutamos um Migrador, principalmente um associado à tantas mortes, você pode ser linchado de novo. Ou até pior. Deu pra entender?
— Sim... Valeu pela ajuda lá atrás, aliás.
O bardo sorriu, bagun?ando o cabelo dele.
— N?o foi nada, Miquéias.
— E da pra parar de me chamar disso?!
Sorfeu pigarreou, segurando um riso.
— Quando os porcos voarem eu paro.
Enquanto Sorfeu liderava Micah através das cal?adas, ele viu p?steres, velhos e desbotados, nas paredes dos becos mais escuros. Alguns diziam “Charbonpierre quer VOCê para a futura República,” outros “Junte-se aos Republicanos. Junte-se ao futuro de seus filhos,” e outros “Separados, somos presas da Coroa. Juntos, o fim da tirania.”
Finalmente eles pararam em frente à uma Igreja simples de pedra, quase que o completo oposto da arquitetura extravagante da catedral. Várias famílias já entravam pelo port?o velho de madeira, mas um grupo de seis estavam na entrada, como se esperassem por alguém. No grupo estava: uma mulher jovem com um nariz pequeno e olhar cansado, levando um vestido longo, uma menina pequena que segurava a m?o da mulher, dois gêmeos adolescentes que cochichavam entre si, rindo sozinhos, e uma garota pré-adolescente de óculos olhando pro céu, sonhando acordada. E, quando se aproximaram, Micah se surpreendeu ao ver que o sexto homem era o Gunther.
A primeira a perceber Sorfeu foi a menina pequena. Seus olhos brilharam ao vê-lo e ela saiu correndo em dire??o à ele.
— Irm?o! — Exclamou.
A menina quase derrubou Dennisorfeu com o impacto do abra?o.
— Ei, ei! — ele riu, segurando-a antes que ambos caíssem. — Calma, Gretta.
Ela enterrou o rosto na túnica preta dele, como se precisasse se certificar de que ele era real.
— Você demorou. — murmurou, fazendo biquinho
— Eu sei. — respondeu, passando a m?o em seus cabelos. — A estrada tava… complicada.
A mulher jovem foi a segunda a se aproximar. O cansa?o em seus olhos n?o vinha de uma noite mal dormida, mas de anos acumulados de responsabilidade. Ela sorriu — um sorriso pequeno, mas genuíno — antes de puxar Dennisorfeu para um abra?o mais contido.
— Ainda vivo. — disse ela. — Milagre recorrente.
— Fa?o o possível. — respondeu o bardo.
Os gêmeos se aproximaram logo depois, analisando-o de cima a baixo.
— Ele tá mais magro. — comentou um.
— Tá mais feio. — corrigiu o outro.
— E vocês dois continuam insuportáveis. — Dennisorfeu rebateu, sorrindo.
A garota de óculos finalmente desceu do mundo das nuvens e olhou diretamente para Micah.
N?o sorriu.
Na verdade, ninguém além de Gretta sorriu para ele.
O silêncio durou apenas um segundo — mas foi o suficiente.
A mulher mais velha percebeu.
— Ah… — disse, olhando de Micah para Dennisorfeu. — Imagino que esse seja o amigo que você mencionou na carta.
— Micah. — Sorfeu disse, puxando-o levemente para frente. — Ele veio… de longe.
Os olhos dela pararam no capuz.
Depois no queixo.
Depois, inevitavelmente, em um fio de cabelo ruivo escapando por baixo do tecido escuro.
O sorriso dela n?o desapareceu.
Mas endureceu.
— Entendo. — respondeu, por fim. — Sou Marta.
— Prazer. — Micah disse, inclinando levemente a cabe?a.
Os gêmeos trocaram um olhar rápido.
— Ele fala estranho. — murmurou um deles.
— E é ruivo. — completou o outro, sem qualquer esfor?o para ser discreto.
Dennisorfeu lan?ou-lhes um olhar afiado.
— Hoje n?o.
Eles se calaram.
Gunther foi o último a se mover.
Aproximou-se em silêncio, avaliando Micah com o mesmo olhar que usaria para medir o peso de uma arma defeituosa. Depois, estendeu a m?o.
— Eu lembro de você, mas acho que nunca me apresentei né? Sou Gunther.
Micah apertou.
— Micah. N?o sabia que vocês dois eram irm?os.
— Agora sabe. E você n?o é kaleorino, certo? — disse ele, mais como constata??o do que pergunta.
— N?o.
Gunther assentiu uma única vez.
— ótimo.
Nada mais foi dito.
Antes que qualquer outra tens?o se formasse, o sino menor tocou novamente.
Marta respirou fundo.
— Vamos. O alinhamento vai come?ar.
O interior da igreja era simples.
Nada de ouro, nada de vitrais grandiosos. Apenas pedra clara, bancos de madeira escura e, ao centro, o Altar da Serpente Prateada.
Ela n?o era representada como um monstro ou divindade distante, mas como um círculo incompleto: o corpo serpentino formando quase um anel, mordendo a própria cauda sem nunca fechá-la por completo. O espa?o vazio no centro permanecia intocado.
Micah sentiu um arrepio.
Famílias se aproximavam do altar em silêncio organizado, depositando suas oferendas: p?es de milho embrulhados em pano, garrafas de cerveja, pequenos cestos de cerejas-do-cerrado.
A maioria das cervejas eram bonitas e bem embaladas — compradas em cervejarias — outras mais rústicas, fermentadas em casa por crentes ortodoxos. Os p?es seguiam o mesmo padr?o.
Marta entregou um p?o às m?os de Gretta.
— Com cuidado.
A menina caminhou até o altar com uma seriedade quase cerimonial e depositou o p?o junto às outras oferendas.
Micah hesitou.
— Eu… n?o trouxe nada.
Dennisorfeu tirou algo do bolso da jaqueta: um pequeno saco de pano.
— Trouxe sim. — disse, entregando-lhe. — Colheita atrasada, mas sincera.
Dentro havia cerejas. Um pouco passadas, mas ainda boas.
Micah engoliu seco e seguiu até o altar. Ao depositar o saco, seus dedos tocaram a pedra fria.
Por um instante breve demais para virar certeza, ele sentiu algo alinhar dentro do peito — n?o paz, n?o conforto, mas… ordem. Como pe?as se encaixando à for?a.
Ele se afastou rapidamente, sentando-se junto da família de Sorfeu.
O culto come?ou sem serm?o.
Sem gritos.
Sem promessas.
Um acólito falou apenas uma frase:
— Que cada um reconhe?a seu lugar na engrenagem, e n?o fuja do peso que lhe cabe.
Todos inclinaram a cabe?a e disseram em uníssono:
“Ordos”
Um homem de vestes prateadas tomou seu lugar em frente ao altar.
— Antes de iniciarmos o culto, anuncio, por decreto da Catedral e com a ben??o do Coroa — Declarou com uma voz quase robótica. — que torna-se público o compromisso matrimonial entre Wanderson Von Luther e Rebbeka Grünermais. A cerim?nia ocorrerá no próximo Asheridal.
Um murmúrio atravessou a igreja.
— Uau... Eu n?o tinha ideia de que o relacionamento deles tava t?o sério assim... — Sussurrou o bardo, sentado ao lado de Micah.
O sacerdote limpou a garganta.
Todas as outras vozes cessaram.
— O mundo n?o é justo. O mundo é correto ou incorreto. Hoje, mediremos o quanto nos desviamos.
Ele abriu o livro negro que estava sob seu bra?o, abrindo-o encima de um púlpito de mármore branco. Colocou seus óculos, correndo o dedo enrugado sob as páginas amareladas como um professor que escolhe qual aluno malcriado usará de exemplo.
Seu dedo parou.
Sem levantar a cabe?a, disse em voz alta:
— Romeu Viehcourt, levante-se.
As pessoas olhavam entre si, o silêncio era absoluto.
Romeu Viehcourt se levantou devagar.
Era um homem comum demais para o peso que caiu sobre ele. Vestia roupas escuras bem cuidadas, m?os calejadas de alguém que trabalhava com transporte ou carga. Seus olhos percorriam a igreja como se buscassem uma saída que n?o existia.
O sacerdote ergueu o olhar pela primeira vez.
— Profiss?o.
— Estivador do cais leste. — respondeu Romeu, a voz firme demais para alguém que n?o estivesse nervoso.
— Estado civil?
— Casado.
— Filhos?
— Dois.
O homem de prateado assentiu uma única vez, como quem confirma dados em um registro.
— Durante o último ciclo, você reteve parte do peso que lhe foi confiado. — disse, sem acusa??o na voz. — Três remessas declaradas como completas chegaram incompletas. O excedente n?o foi redistribuído. Foi roubado.
Um murmúrio quase inaudível percorreu a igreja.
Romeu apertou a mandíbula.
— Eu pretendia devolver.
— Inten??o n?o é fun??o. — respondeu o sacerdote, seco. — Você reteve por medo?
— N?o. — ele respondeu rápido demais. — Por precau??o.
— Precau??o é desconfian?a no reino. E desconfian?a no reino é desconfian?a em Axis.
Silêncio.
— O coletivo n?o falha. Pessoas falham. Reconhece sua falha?
Romeu hesitou, mas assentiu com a cabe?a.
— Reconhe?o.
Dois acólitos se aproximaram, n?o para tocar Romeu, apenas para marcar presen?a, como pesos adicionais numa balan?a invisível.
— Sua falha n?o exige puni??o pública. — continuou o sacerdote. — Exige corre??o.
Ele virou-se para o altar e ergueu uma das garrafas de cerveja oferecidas mais cedo, derramando um pouco sobre a pedra da Serpente Prateada.
— Você devolverá o excedente ainda hoje. Trabalhará com a redistribui??o durante três Axedais.
“E reconhecerá, diante do seu núcleo familiar, que falhou em sustentar o ritmo que lhe foi confiado.”
Romeu engoliu seco.
— …Ordos. — murmurou.
— Ordos. — respondeu o sacerdote.
Romeu sentou-se.
Ninguém comentou.
Ninguém consolou.
Ninguém julgou.
Micah sentiu um desconforto estranho rastejar pela coluna.
N?o era medo.
Era a sensa??o de que ninguém ali era invisível.
O sacerdote passou a página, anotando algo.
— Alinhamento menor concluído.
Ele retirou os óculos.
— Agora, o alinhamento coletivo.
Os acólitos come?aram a recolher as oferendas do altar, colocando-as em cestos maiores. O som do p?o sendo empilhado, das garrafas se tocando, era o único ruído no sal?o.
— Axis n?o pede devo??o. — disse o sacerdote. — Pede confian?a.
Ele estendeu a m?o direita, palma aberta.
— Repitam.
Todos se levantaram.
Micah hesitou por meio segundo, ent?o se levantou também.
— Somos pe?as. — disse o sacerdote.
— Somos pe?as. — respondeu a igreja.
— Carregamos peso.
— Carregamos peso.
— E quando falhamos, n?o quebramos.
— N?o quebramos.
— Ajustamos.
— Ajustamos.
O sacerdote abaixou a m?o.
— O alinhamento está feito.
Os sinos menores tocaram uma única vez. E o livro se fechou.
O culto havia acabado.
Ninguém saiu mais leve.
Mas todos saíram… no lugar certo.
Dennisorfeu bateu de leve no ombro dele.
— Viu? — murmurou. — N?o é sobre ser bom.
Micah engoliu seco.
— é sobre caber.
— Exatamente. Nesse mund?o, só temos um ao outro. Tudo que o Axis quer é que confiemos nele, e em nós...
...
O almo?o foi barulhento.
Panelas fumegavam, o cheiro de ensopado preenchia a casa modesta. Marta se movia pela cozinha com eficiência automática, distribuindo tarefas, afastando Gretta do fog?o, mandando os gêmeos lavarem as m?os três vezes.
Micah sentou-se meio deslocado, até que um prato foi empurrado em sua dire??o.
— Come. — disse Marta. — é como dizem, saco vazio n?o para em pé.
Ele assentiu, sem saber exatamente o que responder.
A situa??o era estranha, fazia anos que n?o comia com alguém. Micah havia esquecido como é ter uma família. O ambiente era caótico, irritante até, mas... bom, de alguma forma.
Ele sempre fora filho único, e havia acabado de conhecer essas pessoas, mas, mesmo assim, ele sentia conforto em estar lá. A solid?o que o afligia a tanto tempo era anestesiada por um instante, apenas por um momento, mas o suficiente para conseguir rir junto deles.
Enquanto comiam, Dennisorfeu finalmente perguntou, casual demais:
— O pai…?
O silêncio caiu pesado sobre a mesa.
Marta continuou mexendo a panela.
— Dormindo.
— De novo?
— Sempre.
Dennisorfeu n?o insistiu.
Após o almo?o o barulho diminuiu, agora substituído pelo som de pratos sendo lavados, com Micah e Sorfeu trabalhando juntos. Micah lavava e Sorfeu secava e guardava.
Gunther já havia voltado ao seu posto na Ponte Norte, Marta tirava uma soneca no andar de cima antes de voltar ao trabalho na padaria. Aos poucos a rotina voltava.
A água estava quente demais, mas Micah n?o fechou a torneira.
O prato escorregou uma vez. Depois outra.
Ele respirou fundo, como se isso fosse resolver. N?o resolveu.
“Ent?o é assim.”
“Era só isso.”
“Era só eu ter ficado.”
Uma lágrima escorreu por sua bochecha e caiu na espuma abaixo. E outra. Por alguns segundos n?o paravam de cair.
Ele n?o sabia por que chorava.
Ou, pelo menos, fingia n?o saber.

