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Existe um mundo, perdido entre milhares de outros, tragados pelo esquecimento. Um lugar onde a tecnologia reinava soberana, mas a humanidade n?o passava de uma sombra distante — um eco fraco de algo que já n?o existia. O progresso, que um dia prometeu um futuro glorioso, tornou-se o próprio carrasco de sua cria??o.
A esperan?a, antes um farol para os que vagavam na escurid?o, havia se apagado há muitas décadas. O tempo apagou seus nomes, e o a?o das engrenagens que dominavam aquele mundo corroeu qualquer resquício do que um dia foi luz. O que antes fora uma vibrante civiliza??o agora se resumia a uma ruína, com restos de estruturas que pareciam querer engolir tudo, sem piedade.
Entre os destro?os, algo destoava da ruína. Um mural antigo, quase apagado, ainda insistia em permanecer na parede quebrada. As cores estavam mortas, as formas irreconhecíveis, mas havia ali a tentativa desesperada de lembrar quem eles foram. Nem mesmo as máquinas conseguiram fazê-lo desaparecer por completo — porque alguém, em algum momento, se recusou a esquecer.
E ent?o, a escurid?o tremeu.
Uma luz rasgou o vazio, abrindo uma fenda no desespero. Seu brilho cortou a monotonia fria, como se o próprio universo se recusasse a esquecer aquele lugar. O ar pareceu vibrar, e entre os destro?os e corpos esquecidos, um portal se abriu. As máquinas, por um momento, pararam, como se reconhecessem o que estava prestes a acontecer.
N?o foi erro do sistema. Algo naquele mundo respondeu — como se, depois de muito tempo, tivesse sido lembrado de que ainda existia.
E de dentro dele, alguém surgiu.
Samuel.
Seus olhos percorreram as ruínas à sua frente. Ele reconheceu o que restava daquele mundo. O ar pesado, o cheiro de morte, o silêncio absoluto, exceto pelo eco distante das engrenagens. Mas ele n?o recuou. N?o hesitou.
Ele havia chegado.
E sua presen?a mudaria tudo.
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Dois anos e meio se passaram desde a última vez que Samuel se despediu de Alex e daquele mundo. O tempo avan?ou, mas ele jamais ousou esquecer aqueles que um dia chamou de família. Cada lembran?a ainda vivia dentro dele, gravada n?o apenas na mente, mas no cora??o.
Desde ent?o, percorreu incontáveis mundos, resgatando-os das sombras que amea?avam consumi-los. Em cada lugar, deixava sua marca—às vezes em gestos simples, como mudar um pensamento ou influenciar um destino com uma escolha sutil. Outras vezes, com atos grandiosos que alteravam o curso da história.
às vezes, ao atravessar um portal, Samuel sentia o peso silencioso dos mundos que n?o chegara a tempo de salvar. N?o por dúvida — mas porque sabia que n?o poderia estar em todos ao mesmo tempo.
Samuel era um justiceiro silencioso, sério quase o tempo todo, mas quando precisava reacender a esperan?a, suas palavras eram exatas, perfeitas. Mostrava, com poucas palavras, que ainda havia algo pelo qual lutar.
Mas havia mundos onde palavras n?o bastavam. Lugares onde o próprio esquecimento drenava a vida, onde o desespero se enraizava t?o fundo que parecia impossível arrancá-lo. Ele sentia o peso dessas batalhas com mais for?a do que gostaria. Cada mundo perdido deixava uma marca, e Samuel sabia que, se n?o conseguisse resgatar esses lugares, a escurid?o ganharia terreno. Ele n?o podia deixar isso acontecer.
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Samuel sabia que resgatar esses mundos era a chave para enfraquecer o verdadeiro inimigo: o esquecimento.
Ainda assim, enquanto houvesse uma única chama acesa dentro dele, seguiria em frente. Porque, às vezes, tudo o que o mundo precisava era de alguém que se recusasse a esquecer.
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Após salvar mais um mundo, um portal abriu-se diante de Samuel. Como sempre fazia antes de partir, ele parou por um instante, deixando o olhar vagar pela paisagem que estava deixando para trás. A sensa??o era a de que ele estava deixando um peda?o de si em cada lugar que salvava. E essa sensa??o o acompanhava, como um peso invisível.
Cada mundo deixava uma marca nele—memórias que ele se recusava a abandonar. Ele jamais esqueceria os rostos, as palavras, as vidas que tocou. O vazio do esquecimento era uma sombra que o perseguia, mas ele se mantinha firme, como uma rocha em meio ao mar revolto.
Com um suspiro leve, murmurou para si mesmo:
— Mais um mundo que ainda resistia ao esquecimento.
Virou-se e deu um passo à frente. Assim que seu corpo desapareceu dentro do portal, a fenda se fechou atrás dele como um sussurro, apagando-se no ar como se nunca tivesse existido.
Mas, mesmo depois que o portal se foi, aquele mundo ainda vivia dentro dele.
Ao emergir do outro lado, Samuel encontrou-se em um lugar familiar, uma toca de lobo. O cheiro da terra e da madeira misturava-se ao leve perfume das lembran?as. Era uma sensa??o reconfortante, como voltar a um lar antigo, ainda guardado nas memórias.
Ele parou por um instante, absorvendo o ambiente ao seu redor. N?o era a mesma toca onde conhecera Alex. Mas era um lugar semelhante. Um refúgio. Um lar que ainda o reconhecia.
O silêncio ali dentro era diferente do silêncio dos mundos esquecidos. N?o era um silêncio de vazio e abandono, mas de paz. De pertencimento. O espa?o era simples, mas carregado de significado. Pelas paredes, estavam dispostas pequenas relíquias, cuidadosamente organizadas. Fragmentos de cada mundo que ele havia ajudado, peda?os de histórias que se recusavam a desaparecer.
Samuel caminhou pelo local, deixando os dedos ro?arem cada objeto. Um medalh?o antigo, uma foto envelhecida, uma escultura talhada à m?o. Cada um deles contava uma história. Cada um deles era uma lembran?a viva de um mundo salvo.
Ent?o, ergueu a palma da m?o.
Uma luz suave brilhou sobre sua pele, e um pequeno vaso materializou-se, contendo uma flor vibrante e delicada. Uma lembran?a viva do mundo que ele acabara de salvar. Com cuidado, ele a colocou ao lado dos outros objetos, dando-lhe um lugar entre as memórias.
Por um breve momento, Samuel fechou os olhos e inspirou fundo, sentindo a paz que o envolvia. Era um raro instante de descanso. Mesmo assim, havia algo no ar — leve demais para ser chamado de amea?a, mas presente o suficiente para lembrá-lo de que aquela paz n?o era permanente. Mas, por agora, ele se permitia esse pequeno momento de serenidade.
E foi ent?o que uma luz dourada preencheu a toca, envolvendo tudo com um brilho etéreo. A luz parecia reconhecer a importancia daquele momento de tranquilidade.
A voz que ecoou era serena, mas carregava um peso grandioso, como a sabedoria dos tempos antigos.
— Vejo que salvou mais um mundo. Agradecemos por isso. Observamos o que fez… e o peso que carregou.
Samuel permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo aquelas palavras. Seu olhar era sereno, mas havia algo firme nele—uma convic??o inabalável. Ele era um homem de poucas palavras, mas as que dizia sempre carregavam um peso.
— Quem deveria agradecer sou eu — disse, sua voz firme. — Você me deu uma chance… e agora eu posso dar essa mesma chance para aqueles que precisam.
A luz pareceu pulsar, como se reagisse àquelas palavras, respondendo ao peso daquelas escolhas.
— Fico feliz em ouvir isso.
O brilho continuou a dan?ar suavemente pelo ar, enquanto Samuel se permitia um raro instante de descanso. Ele sabia que logo outro portal se abriria. Outro mundo precisaria dele. Mas, por um breve momento, ele estava em casa.
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