Saga 1: O Martelo Adormecido
Capítulo 1: O Legado Dourado
Há muito tempo, talvez mais tempo do que as estrelas se lembram de contar, a guerra era a única verdade no planeta Aethel. Uma guerra que n?o consumia apenas vidas, mas a própria essência de um mundo que fora o ber?o de duas civiliza??es cósmicas. O céu, outrora um manto de azuis serenos e nebulosas púrpuras, era agora uma tela rasgada, uma ferida aberta onde relampagos sombrios e feixes de luz dourada se chocavam numa dan?a de aniquila??o perpétua. A própria terra tremia, n?o com a pulsa??o da vida, mas com o choque de poderes que a raz?o mortal jamais poderia conceber.
De um lado, lutavam os Magic Dourados. Eram arquitetos da paz, guardi?es do equilíbrio, e sua luz era um reflexo da ordem cósmica que juraram proteger. Liderados pelo seu venerável Primeiro, um ser cuja idade se media em eras, eles eram a última linha de defesa contra o esquecimento.
Do outro lado, envolta num véu de ambi??o e terror, vinha a Liga das Trevas. Os seus membros, os Magic Negros, n?o desejavam colher, mas sim quebrar; n?o procuravam construir, mas sim dominar. O poder absoluto era a sua única doutrina, e a destrui??o, o seu único sacramento.
Do alto da última cidadela de pé, uma torre de pedra e luz que se erguia desafiadoramente contra o céu doente, o Primeiro Magic Dourado observava. Os seus olhos, que já tinham visto a cria??o de galáxias, n?o se focavam em mapas táticos ou em estatísticas de baixas. Ele via algo muito mais cru, muito mais doloroso. Ele via a luz dos seus guerreiros, cada uma uma alma, uma história, uma promessa, a extinguir-se no campo de batalha lá em baixo. Uma a uma, como velas apanhadas por um vendaval impossível.
As suas legi?es, outrora uma vis?o de magnificência dourada que fazia os sóis se curvarem em respeito, estavam a ser dizimadas. O avan?o da escurid?o era um cancer implacável, uma maré negra que engolia tudo no seu caminho. Para ele, a derrota já n?o era uma possibilidade remota a ser evitada. Era uma certeza iminente, uma verdade fria que se instalou no seu cora??o milenar. E com essa certeza, vinha outra: o sacrifício era inevitável. Para que o futuro n?o caísse nas m?os erradas, ele teria de usar o seu último e mais desesperado recurso.
You might be reading a pirated copy. Look for the official release to support the author.
Fechando os olhos, ele virou as costas ao espetáculo da sua própria aniquila??o. No silêncio do seu santuário, ele reuniu o que restava do seu poder, uma torrente de energia que outrora poderia mover mundos. Agora, seria a matéria-prima para uma única e última cria??o. Ele moldou a luz com as suas m?os, comprimindo-a, purificando-a, até que, diante dele, flutuava um objeto de uma beleza sem igual: uma Esfera de Luz Pura, a essência de tudo o que os Magic Dourados representavam.
Com um sussurro que era ao mesmo tempo uma ora??o e um lamento, carregado com o peso da esperan?a e a agonia da perda, ele programou a Esfera com a sua miss?o derradeira. Ela n?o era uma arma para vencer aquela guerra, pois essa já estava perdida. Era uma semente. Uma semente que deveria encontrar alguém digno, uma alma forte e corajosa, capaz n?o apenas de continuar a sua batalha, mas, um dia, de a vencer em definitivo.
A Esfera foi libertada.
Com a sua tarefa gravada no seu cora??o de luz, o artefato ergue-se, atravessou o teto da cidadela e subiu acima do campo de batalha fumegante. Rasgou o céu enegrecido como uma promessa dourada, uma lágrima de um deus a fugir do seu mundo condenado.
Mas o seu brilho n?o passou despercebido.
[Cena Oculta]
Longe, no cora??o pulsante da fortaleza inimiga, num trono forjado de pesadelos e obsidiana, o Lorde da Liga das Trevas sentiu aquela luz fugidia. Levantou a cabe?a, os seus olhos a arderem sob um elmo de trevas, e avistou a anomalia dourada a escapar. Um rosnado de puro desprezo ecoou na sua camara do trono. Ele estendeu a m?o enluvada, um gesto de desdém. As pontas dos seus dedos, veias de energia sombrias, rápidas e vorazes como serpentes negras, dispararam pelos céus. A sua miss?o: esmagar aquela última e insolente centelha de esperan?a.
Contudo, o artefato, imbuído com o sacrifício final do seu criador, recusou-se a morrer. Sentindo a proximidade da escurid?o, a Esfera brilhou intensamente, uma última e desafiadora manifesta??o de vontade. E ent?o, multiplicou-se.
Numa explos?o silenciosa de luz, o ataque das trevas atingiu o vazio. Dezenas, talvez centenas de esferas idênticas escaparam ao bloqueio da Liga, dispersando-se como sementes de dente-de-le?o num vento cósmico. Cada uma partiu para os confins desconhecidos do universo, silenciosa, paciente, cada uma em busca do seu próprio campe?o. A guerra por Aethel poderia ter acabado, mas a guerra pela alma do universo tinha acabado de come?ar.

