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Capitulo 5 A Queda

  O céu come?ava a escurecer quando as vans entraram pelos port?es de Aster.

  A pressa era quase infantil.

  Ninguém queria perder a festa.

  Risadas ecoavam entre as casas, sacolas sendo jogadas sobre os ombros, comentários sobre quem iria usar o quê. A energia ainda vibrava do treino. A feira tinha ampliado aquilo.

  Eles estavam vivos.

  E estavam juntos.

  Foi por isso que a vis?o à frente pareceu t?o deslocada.

  Dellamuta, Bella e Ruth.

  Os três aguardavam em frente ao alojamento.

  N?o estavam sorrindo.

  — Ué... — disse Evan, diminuindo o passo. — Reuni?o essa hora?

  Pedro olhou de um para o outro.

  — Se for inspe??o de sacola, eu declaro desde já que n?o contrabandeei nada ilegal.

  Beth cruzou os bra?os.

  — Lá vem encrenca.

  Victor respirou fundo.

  A noite ainda n?o tinha caído por completo, mas a luz já era azulada. Fria.

  — Precisamos conversar.

  O grupo foi se aproximando, a empolga??o se dissolvendo como fuma?a.

  Bella permanecia com os bra?os cruzados. Ruth segurava um pequeno tablet de anota??es, mas n?o olhava para ele.

  Victor come?ou.

  — Vocês cresceram. Mais rápido do que eu imaginava... jornada de vocês em Aster está chegando ao fim.

  As palavras caíram como pedra em água parada.

  — Como assim? — Cristopher foi o primeiro.

  Victor manteve a voz firme.

  — Nos próximos meses, vocês poder?o escolher seus caminhos. Para onde ir?o. Com quem ir?o. N?o ser?o obrigados a sair imediatamente. Mas precisam entender que este é um ciclo natural.

  Pedro deu um passo à frente.

  — Natural? A gente acabou de chegar no auge de nossas habilidades.

  — N?o se trata de treino — respondeu Victor. — Se trata da dinamica das comunidades.

  Ele continuou, mais duro agora.

  — Apenas Evan e Anne precisar?o permanecer.

  O impacto foi imediato.

  — O quê? — Grace quase sussurrou.

  — Isso é absurdo — disse Maisa.

  — Ent?o é isso? — Luiz deu um meio passo para frente. — A gente vira descartável?

  Victor ergueu a m?o.

  — N?o é isso que estou dizendo. Vocês podem permanecer juntos. Mas n?o necessariamente em Aster.

  — Você está nos expulsando — disse Cristopher, direto.

  — N?o. Estou oferecendo escolha.

  — Com prazo — respondeu Beth, fria.

  Ruth finalmente falou.

  — Aster opera sob um sistema de rotatividade populacional controlada. A cada ciclo mensal, novas famílias s?o realocadas aqui. Para manter estabilidade estrutural, recursos e densidade equilibrados, outras devem ser realocadas para comunidades parceiras. é um cálculo logístico, n?o emocional.

  Pedro soltou um riso seco.

  — Claro. Porque somos equa??es.

  Bella suspirou.

  — Isso faz parte da dinamica. Sempre fez. Vocês sabiam que um dia aconteceria.

  — N?o assim — Grace respondeu.

  — N?o separados — completou Maisa.

  Victor olhava para todos, mas sentia um peso específico vindo de um ponto.

  Evan.

  Ele ainda n?o tinha dito nada.

  Estava parado, os olhos fixos em Dellamuta.

  Azuis.

  Calmos demais.

  Quando falou, o ar mudou.

  — Você arrumou uma desculpa para expulsar o professor Gehard.

  Um silêncio caiu sob o alojamento.

  Victor sentiu a acusa??o como um golpe físico.

  — Agora está arrumando outra para se livrar da gente.

  A voz de Evan n?o estava alterada.

  Era firme, controlada.

  Mas havia algo ali.

  — Hoje você diz que só eu e a Anne precisam ficar — ele continuou. — Amanh? você muda de ideia.

  Os olhos dele pareciam mais intensos.

  — Acho que é isso que você faz quando sente medo.

  O vento soprou mais forte entre as constru??es.

  — Você afasta o que te dá medo.

  Ninguém respirava.

  — Porque, se pudesse... você corria. Fugiria e se esconderia. Como um rato assustado, se arrastando pelos bueiros da comunidade.

  A última frase foi quase um sussurro, mas cortou como lamina.

  — Fugindo sempre que sente medo — Evan deu dois passos pra frente, se aproximando de Dellamuta. O olhar fixos em seus olhos, ja n?o mais t?o azuis.

  —Você n?o pode nos obrigar a ficar, se eles sairem, eu e Anne também sairemos!

  A porta do alojamento foi aberta com for?a.

  Evan saiu.

  O som da porta batendo ecoou como trov?o contido.

  Grace n?o hesitou.

  — Evan! — chamou, já indo atrás dele.

  Anne permaneceu imóvel por um instante.

  Os outros também.

  Ninguém olhava para Victor.

  E naquele silêncio pesado, o homem de quase dois metros pareceu menor do que nunca.

  Do lado de fora, o ar estava mais frio do que deveria.

  Evan caminhava rápido demais. N?o correndo — mas quase.

  Grace o seguiu.

  — Evan.

  Ele n?o respondeu.

  O lago refletia o céu escuro como um espelho rachado. A luz dos alojamentos já come?ava a acender atrás deles.

  Ela segurou a m?o dele.

  E ele parou.

  O maxilar estava tenso.

  — Eu n?o vou deixar que ele nos separe — disse Evan, ainda olhando para frente.

  Grace apertou seus dedos.

  — Ele n?o pode nos separar.

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  Silêncio.

  O vento movia o cabelo escuro dele sobre a testa.

  — Eu n?o tenho medo de sair de Aster — ele continuou, mais baixo agora. — Eu tenho medo de perder vocês.

  Ela deu um pequeno sorriso.

  — Você n?o vai me perder.

  Ele finalmente a olhou.

  Os olhos azuis ainda estavam intensos, mas agora havia algo quebrado ali.

  — E se tudo mudar?

  Grace se aproximou um pouco mais.

  — Ent?o a gente muda junto.

  Ela entrela?ou os dedos aos dele com mais firmeza.

  — N?o importa onde você vá, eu vou.

  N?o importa o que aconte?a... eu fico.

  Evan respirou fundo.

  Ela encostou a testa na dele.

  — A gente n?o é Aster, Evan.

  A gente é a gente.

  Ele sorriu pela primeira vez naquela noite.

  Pequeno.

  Verdadeiro.

  — Ent?o promete?

  — Prometo.

  — Nunca se separar?

  — Nem se o mundo cair.

  Evan aproxima o rosto de Grace ao seu e a beija tranquilamente, como um suspiro de alivio e gratid?o. Havia amor ali.

  Sentados na beira do lago, parecia impossível que qualquer coisa pudesse quebrá-los.

  No alojamento, Dellamuta ainda estava em pé.

  O grupo ainda n?o tinha terminado de reagir quando ele acrescentou:

  — Vocês também n?o est?o autorizados a ir à festa em Teluria.

  O silêncio durou meio segundo.

  Depois explodiu.

  — O QUê? — Pedro quase gritou.

  — Tá de sacanagem? — Cristopher passou a m?o pelo cabelo.

  — A gente comprou roupa! — Maisa e Beth gritaram juntas, indignadas.

  — Eu já tinha planejado tudo! — Pedro.

  — Eu também! — Crist.

  — Isso é puni??o? — Luiz perguntou, firme.

  Anne deu um passo à frente, calma.

  — Você está com medo da gente?

  Victor hesitou.

  Anne n?o estava acusando.

  Ela parecia... preocupada.

  — Nós te assustamos, Della?

  A pergunta foi mais dolorosa do que qualquer grito.

  Bella suspirou.

  Ruth permaneceu imóvel, mas seus olhos analisavam cada microexpress?o.

  Victor respondeu baixo:

  — Eu só estou tentando proteger vocês.

  — De quê? — Luiz insistiu.

  Mas ele já n?o tinha resposta suficiente. Ele n?o estava sendo babaca ou maldoso com eles. Seria difícil faze-los entender que agora, eles tinham atingido um nível de habilidade incontrolável, e que, enquanto permanecerem próximos a Evan e Anne, eles continuar?o sendo "alimentados" por esse energia.

  Ele receia que eles n?o consigam viver uma "vida normal e tranquila" se algo fora do controle aconte?a. Principalmente em festas noturnas com grande quantidade de pessoas.

  Ent?o sem mais o que dizer, os três adultos saíram sob protestos e portas sendo fechadas com for?a.

  E ao cruzarem o pátio, viram Evan e Grace sentados à beira do lago.

  Conversando.

  Sorrindo.

  Na manh? seguinte

  — ACORDA, SEUS LENTOS!

  Pedro abriu a porta do quarto com um estrondo.

  Cristopher jogou o travesseiro na cara dele.

  — Que horas s?o, criatura?!

  — Hora de viver!

  Evan gemeu.

  — Se isso n?o for urgente, eu vou te eletrocutar.

  Pedro ignorou.

  — Tive uma ideia genial.

  — Já n?o gostei — murmurou Crist.

  — E se a gente for naquela cachoeira que falaram na feira?

  — E fazer o quê? — Cristopher cruzou os bra?os. — Andar nos pastos? Você é o único que acha ruína romantica.

  — Escuta, "celeia" — Pedro respondeu com um sorriso sarcástico. — Podemos dar um susto nos mand?es de Aster. A gente curte só a gente lá. Sem festa, sem regra. Só a gente.

  — E a parte de dar um susto neles dizendo que fugimos? — Maisa perguntou, desconfiada.

  — Tá, essa parte eu pensei alto.

  Mas a ideia já tinha acendido algo.

  Olhares se cruzaram.

  Sorrisos surgiram.

  — Eu topo — disse Grace.

  — Eu também — Beth.

  — Se for pra nadar, eu vou — Crist.

  Anne apenas assentiu.

  Evan suspirou.

  — Vocês s?o impossíveis.

  Mas ele já estava levantando.

  Eles saíram discretamente.

  Pegaram uma van elétrica.

  Marcos, o guarda da portaria, sorriu ao ver Evan.

  — Passeio?

  — Só até o Vale. Voltamos antes do p?r do sol.

  Evan tinha um jeito de falar que tornava qualquer coisa razoável.

  Marcos liberou.

  Minutos depois, a informa??o subia pelos comunicadores.

  E chegava até Dellamuta, ele congelou.

  A cachoeira n?o fazia barulho suficiente para se esconder do mundo.

  A água caía contínua, firme, espumando contra as pedras escuras do pared?o. O lago refletia o céu limpo, azul quase dourado pelo sol da tarde. A vegeta??o ao redor parecia viva demais; folhas largas, trepadeiras descendo pelas rochas, pequenas flores silvestres espalhadas pelo gramado úmido.

  Era o tipo de lugar que parecia ter sido guardado do mundo.

  E por algumas horas, foi.

  Eles nadaram, riram, escalaram as pedras com desafios improvisados. Cristopher moldava pequenas correntes de água para criar impulso nos saltos. Maisa empurrava rajadas suaves que faziam as quedas parecerem mais longas, mais livres. Pedro levantava plataformas de pedra para saltos mais altos. Beth curava pequenos cortes antes que alguém percebesse que tinha se machucado.

  Evan e Grace mergulhavam juntos.

  Anne observava, sorrindo — mas havia momentos em que seu olhar parecia atravessar a paisagem.

  O sol come?ou a baixar lentamente.

  A luz ficou mais quente.

  Mais densa.

  Os casais se afastaram um pouco, n?o para se esconder.

  Evan e Grace sentaram sobre uma pedra lisa próxima ao lago. A água refletia o céu como um espelho tranquilo.

  — Você percebeu como ele estava olhando pra gente? — Grace perguntou, desenhando círculos na superfície com os dedos.

  — Della? — Evan respondeu, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Ele está com medo.

  — Você acha que ele tem raz?o?

  Evan demorou a responder.

  — Acho que ele sente que perdeu o controle.

  Grace inclinou a cabe?a, estudando o rosto dele.

  — E você?

  Ele olhou para o horizonte.

  — Eu nunca estive t?o no controle.

  Ela sorriu.

  Mas o sorriso dela diminuiu um pouco quando percebeu que ele falava sério demais.

  Mais adiante, Pedro estava contando uma história exagerada sobre a vez em que tentou usar raízes para colher frutas da horta da Bella e acabou arrancando metade da cerca junto.

  — Ela ficou vermelha! — ele ria. — Eu juro que achei que ela ia me enterrar ali mesmo.

  — Você merecia — disse Maisa, jogando uma pedrinha nele.

  Cristopher estava deitado sobre uma pedra quente, olhando o céu.

  — Tá quieto demais

  — O quê? — perguntou Beth

  — Tudo.

  E foi nesse momento que o mundo mudou.

  N?o abruptamente.

  Mas sutilmente.

  Primeiro, foi o silêncio.

  Os pássaros cessaram o canto.

  A água continuava caindo — mas parecia distante.

  O ar ficou mais frio.

  N?o um frio de vento.

  Um frio que vinha de dentro.

  Evan foi o primeiro a sentir.

  Uma press?o no peito.

  Como se alguém estivesse segurando seu cora??o com for?a.

  Ele levantou a cabe?a lentamente.

  Grace percebeu antes que ele falasse qualquer coisa.

  — O que foi?

  Ele n?o respondeu.

  Estava escutando.

  E ent?o veio.

  Um sussurro.

  Baixo.

  T?o baixo que poderia ser imagina??o.

  Depois outro.

  E outro.

  N?o era uma voz clara.

  Era como folhas secas sendo arrastadas sobre pedra.

  Como metal raspando em metal.

  Como palavras ditas atrás de um véu grosso.

  Maisa foi a próxima.

  — Vocês est?o ouvindo isso?

  Cristopher levantou devagar.

  Pedro parou de rir e Anne ficou rígida.

  O vento come?ou a circular entre as árvores.

  Mas n?o era vento comum.

  As folhas n?o se moviam como deveriam.

  Elas pareciam reagir a algo que caminhava entre elas.

  O sussurro aumentou, agudo, constante.

  Evan deu um passo à frente, instintivamente. Ele focou o olhar entre as árvores. A mata parecia mais densa agora, mais profunda. As sombras n?o estavam no lugar certo.

  E ent?o ele viu movimento.

  N?o rápido, controlado.

  Uma silhueta encapuzada deslizou entre os troncos.

  Depois outra.

  Depois várias.

  Eles n?o surgiram de uma vez.

  Eles já estavam ali.

  Observando.

  As máscaras foram a primeira coisa que se tornaram nítidas.

  Cranios de bode.

  Brancos, amarelados pelo tempo.

  Alguns com chifres curvados para baixo.

  Outros apontando para cima como lan?as.

  Alguns tinham ambos.

  Nenhum tinha rosto humano.

  Abaixo do capuz, apenas sombra.

  Correntes metálicas envolviam seus pulsos.

  Subiam pelos bra?os.

  Desciam até as m?os.

  Onde terminavam em laminas.

  Ou garras.

  O som das correntes era o que vibrava no ar.

  Era o que produzia o zumbido.

  O sussurro agora parecia vir deles.

  N?o de bocas.

  Mas de algo atrás das máscaras.

  Evan sentiu a energia subir.

  Os olhos come?aram a brilhar em azul.

  — Fiquem juntos — ele disse, baixo.

  N?o era um pedido, era comando.

  Grace se aproximou dele.

  Pedro se posicionou à frente, os pés já buscando o solo.

  Cristopher puxou água do lago lentamente, sem levantar respingos.

  Maisa ergueu os bra?os, sentindo o fluxo do ar.

  Beth aproximou-se do centro.

  Anne n?o tirava os olhos da figura mais alta entre eles.

  Ela n?o escutava mais a voz.

  Mas sentia que estava sendo reconhecida.

  Os encapuzados n?o atacaram.

  Eles avan?aram um passo. As correntes tilintaram e o vento apitou entre as árvores.

  O sol desapareceu atrás de uma nuvem pesada que n?o estava ali segundos antes.

  Evan sentiu o calor se transformar em incêndio.

  A floresta respirou, o calor voltou n?o como lembran?a, como invas?o.

  Evan levou a m?o ao peito de repente.

  N?o foi gradual.

  Foi como se algo tivesse sido aceso dentro dele.

  — Evan? — Grace percebeu antes de qualquer um.

  Ele congelou.

  Os olhos perderam foco.

  O ar ao redor dele pareceu vibrar.

  E ent?o ele caiu.

  N?o de lado.

  De joelhos.

  Depois para frente.

  O impacto ecoou na pedra úmida.

  — EVAN! — Grace correu.

  Beth já estava ajoelhada ao lado dele, as m?os brilhando em rosé-dourado.

  — Respira... respira...

  Mas ele n?o conseguia.

  O corpo arqueado, músculos tensionados, dedos cravando no solo.

  Era como se algo estivesse queimando por dentro.

  — Está quente demais! — Cristopher recuou um passo ao sentir o calor irradiar da pele dele.

  — Protejam ele! — Pedro já havia erguido uma barreira de pedra ao redor do grupo.

  Anne girava lentamente, olhos atentos à mata.

  Os sussurros sumiram.

  Beth aumentou a intensidade da magia.

  A luz envolveu o peito de Evan.

  Mas n?o penetrava.

  Era como se outra energia estivesse bloqueando.

  — Eu n?o consigo aliviar! — Beth sussurrou, quase desesperada.

  Evan abriu os olhos.

  N?o azuis.

  Dourados.

  Ele olhou para o céu.

  A dor atingiu o pico.

  E ent?o ele gritou.

  N?o foi um grito humano.

  Foi algo que ecoou.

  Um raio disparou da boca dele direto para o céu.

  Dourado brilhante.

  A descarga rasgou as nuvens.

  Iluminou a floresta inteira por um segundo.

  O som ecoou pelos vales.

  E ent?o—

  Silêncio.

  O calor cessou e o corpo dele relaxou.

  Beth ainda o segurava quando ele se levantou de repente, como se nada tivesse acontecido.

  Respira??o pesada, olhos agora novamente azuis. Mas havia algo diferente ali.

  N?o dor, preocupa??o profunda.

  Ele girou o rosto para a mata.

  Nada.

  Os encapuzados haviam desaparecido.

  Nenhuma sombra.

  Nenhuma corrente.

  Nenhum sussurro.

  Só árvores.

  Só vento leve.

  Só o barulho distante da água.

  — Eles se foram... — murmurou Maisa.

  Evan balan?ou a cabe?a.

  — N?o.

  Ele sentiu.

  O ar estava denso.

  Pesado.

  Como antes de uma tempestade real.

  — Alguma coisa vai acontecer.

  A voz dele n?o tremia.

  Mas tinha urgência.

  — Tem algo errado. Precisamos sair daqui. Agora.

  Grace segurou a m?o dele.

  — Pra onde?

  Ele olhou ao redor, avaliando terreno.

  — Alto. Precisamos ver.

  Sem esperar resposta, ele concentrou energia nos pés.

  O ar girou sob as solas.

  Um impulso de vento o lan?ou para o alto.

  N?o era Maísa.

  Foi ele.

  Ele alcan?ou o topo da cachoeira em um salto único.

  O grupo o seguiu — Grace impulsionada pelo próprio salto, Pedro criando apoios rápidos de pedra, Cristopher erguendo água para amortecer quedas, Maisa usando correntes de ar.

  Anne foi a última a subir.

  Ao alcan?arem o topo, tudo parecia normal.

  Sol ainda alto.

  Campos verdes.

  A cidade do Vale visível ao longe; nenhum vento estranho, nenhuma sombra. Estava calmo demais.

  Pedro foi o primeiro a perceber.

  Ele estava olhando para o horizonte.

  E ent?o apontou.

  — EM CIMA!

  Todos levantaram o olhar.

  No céu azul, algo se movia.

  Lentamente.

  Devagar demais.

  Um ponto escuro que crescia.

  N?o caía em velocidade absurda.

  Descia.

  Como se estivesse sendo colocado ali.

  A rocha era gigantesca.

  Marron-avermelhada como terra seca.

  Rachaduras percorriam sua superfície.

  E dessas rachaduras...

  Vazava luz dourada. N?o refletida, vinda de dentro.

  Um ouro vivo.

  Quase pulsante.

  A aura ao redor dele distorcia o ar.

  Era o mesmo tom do raio que saiu de Evan.

  Ele estava a minutos da cidade do Vale.

  A cidade da feira.

  Centenas de pessoas.

  Crian?as.

  Comunidades inteiras reunidas.

  O grupo ficou imóvel.

  Eles tinham enfrentado máquinas.

  Treinado contra si mesmos.

  Sentido sussurros.

  Mas aquilo...

  Aquilo era outra escala.

  O mundo parecia pequeno sob aquela coisa.

  Grace apertou a m?o de Evan.

  — A gente... consegue?

  Ele n?o respondeu imediatamente.

  O reflexo dourado do meteorito iluminava seus olhos. Ele sentia o calor novamente. Mas agora n?o era dor. Era chamado. E pela primeira vez desde que atravessou o portal... Ele sabia.

  Isso n?o era acidente.

  Isso era mensagem.

  E estava vindo para eles.

  O céu escureceu levemente ao redor do corpo rochoso.

  O meteorito continuava descendo.

  Paciente.

  Inevitável.

  E ali, no topo da cachoeira, os jovens perceberam que o mundo que conheciam tinha acabado.

  A queda tinha come?ado.

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