# Capítulo 37: Eu Preciso de Você
## I. O Pedido de Paz
A tens?o no acampamento era quase sólida. A fogueira estalava, lan?ando faíscas que morriam na névoa fria da fronteira, enquanto quatro pares de olhos vigiavam a escurid?o. A sombra que os seguia finalmente se materializou, mas n?o da forma que esperavam.
Nati emergiu entre as árvores retorcidas da floresta vermelha. Seus bra?os estavam abertos, as palmas das m?os voltadas para frente em um gesto universal de rendi??o. Ela caminhava com dificuldade, cada passo parecendo uma batalha contra a própria gravidade.
Zack permaneceu em silêncio, sua express?o uma máscara de gelo. Ao seu lado, K, Lyra e Mira reagiram instantaneamente. O som de laminas sendo sacadas e auras sendo liberadas cortou o ar.
— O que ela está fazendo aqui? — sibilou K, seus olhos brilhando com uma fúria perigosa. — Zack, ela é o inimigo! Ela trabalha para Ygon! é uma armadilha, ela está criando uma abertura para um ataque!
K deu um passo à frente, apontando para Nati com desprezo.
— Eu te disse que foi burrice deixar essa vadia fugir! Agora ela trouxe a guerra até nós!
Zack n?o se moveu. Ele ignorou o desespero de K e a sede de sangue de Lyra e Mira. Seu olhar estava fixo no rosto de Nati. O que ele via n?o era a general arrogante de Ygon, mas uma mulher cujos olhos vermelhos estavam opacos, carregados de um cansa?o que ia além do físico. Eram olhos tristes, desprovidos de qualquer centelha de for?a.
Antes que qualquer uma das mulheres pudesse atacar, o Menino quebrou a forma??o. Ele correu em dire??o a Nati, ignorando os gritos de advertência de suas m?es. Nati paralisou quando sentiu os bra?os pequenos do garoto envolverem sua cintura em um abra?o apertado. Era o mesmo calor, a mesma inocência que a havia desarmado da última vez.
— N?o! — gritou Mira, sacando suas pistolas gêmeas, *Yellow*, e apontando-as diretamente para a cabe?a de Nati. — Saia de perto dele agora, ou eu juro que espalho seu cérebro por essa floresta!
Zack moveu-se com uma velocidade que os olhos mal puderam acompanhar. Ele postou-se entre as armas de Mira e Nati, ficando de costas para a general ferida.
— Abaixem as auras — ordenou Zack, sua voz baixa e vibrante, carregada de uma autoridade que n?o admitia contesta??o. — Controle-se, Mira.
Ele aproximou-se de Mira, olhando profundamente em seus olhos. Com uma calma absoluta, ele colocou as m?os sobre os canos das pistolas, baixando-as lentamente.
— Chega — disse ele, olhando para as três mulheres. — Nati n?o está aqui para lutar. Olhem para os olhos dela. S?o olhos de desespero. Ela veio pedir ajuda.
## II. A Fragilidade da General
Nati permanecia com as m?os levantadas, tremendo levemente. O Menino soltou sua cintura e olhou para ela com preocupa??o.
— Você está com fome? — perguntou o garoto, sua voz doce cortando o silêncio tenso.
Nati engoliu em seco, uma lágrima solitária tra?ando um caminho através da sujeira em seu rosto.
— Sim... muita fome — sussurrou ela.
O Menino correu até a fogueira e voltou com um prato de ensopado quente. Ele o entregou a Nati enquanto o resto do grupo permanecia em alerta máximo, mas Zack apenas observava, sua postura relaxada, mas seus sentidos mapeando cada centímetro da floresta ao redor.
— Zack, mande ela embora — pediu Lyra, a voz carregada de desgosto. — N?o podemos nos aliar a um monstro desses.
Zack n?o respondeu. Ele observava Nati enquanto ela comia desesperadamente. Sob a luz da fogueira, o estado real da general era aterrorizante. O Menino providenciou um pano para ela deitar, e foi ent?o que viram a extens?o dos danos. O corpo de Nati estava coberto de cortes profundos e hematomas arroxeados que manchavam sua pele negra. Seu rosto, outrora de uma beleza letal, estava inchado e desfigurado por golpes brutais. Seu cabelo curto estava emaranhado com sangue seco e terra.
Zack aproximou-se do Menino e afagou seus cabelos.
— Você fez um ótimo trabalho — disse ele suavemente. — Agora, vá ficar com suas m?es.
O garoto obedeceu, e Zack sentou-se ao lado de Nati.
— O que aconteceu? — perguntou ele, o olhar frio e analítico.
— Eu n?o vou dizer — respondeu Nati, tentando recuperar uma fra??o de sua dignidade.
Zack n?o insistiu. Ele sabia que ela estava tentando ser durona, uma casca vazia protegendo o que restava de seu orgulho. Ele se levantou e saiu, voltando momentos depois com um balde de água, panos limpos e ervas medicinais.
— Nenhum homem toca em mim sem minha permiss?o — sibilou Nati, seus olhos faiscando por um instante.
Zack deu um sorriso de canto, quase imperceptível.
— E um garoto pode?
A pergunta desarmou Nati completamente. O Menino aproximou-se novamente e, sob a orienta??o silenciosa de Zack, come?ou a limpar os ferimentos dela. Nati ficou sem rea??o enquanto as m?os pequenas do garoto tratavam suas feridas com uma delicadeza que ela nunca havia conhecido. Zack auxiliava, aplicando as faixas com precis?o militar.
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— Quando estiver disposta, estarei aqui para ouvir — disse Zack, levantando-se. — Agora durma. Amanh? temos uma longa viagem.
## III. O Contrato de Sangue
Nati n?o conseguiu dormir. O frio da madrugada era cortante, e a dor em seus ossos parecia aumentar com o silêncio. Ela observava o céu estrelado, refletindo sobre Zack e seu grupo. Eles eram bons demais, e aquilo a irritava profundamente. Ela culpava Zack por sua liberdade, culpava o Menino por amolecer seu cora??o e, no fundo, odiava a si mesma por n?o ser capaz de lidar com as consequências de suas escolhas.
Durante a madrugada, enquanto tremia incontrolavelmente, sentiu um calor súbito. O Menino havia saído de sua tenda apenas para cobri-la com um cobertor pesado. Ele deu um sorrisinho travesso e voltou para o acampamento. Nati fechou os olhos, sentindo o peso daquela bondade. *Será que fiz a escolha certa?*, pensou ela.
às seis da manh?, os primeiros raios de sol come?aram a tocar o horizonte. O Continente Vermelho era o único lugar onde o sol e a lua podiam ser vistos simultaneamente, pois a névoa n?o era densa o suficiente para bloquear os astros. Nati acordou com a luz tocando seus olhos e viu o grupo tomando café ao redor da fogueira. Eles riam e conversavam, uma unidade perfeita da qual ela n?o fazia parte.
A dor ao se movimentar era excruciante, mas ela conseguiu chegar até o balde de água para lavar o rosto. O Menino, sempre atento, pegou sua m?o e a levou até o círculo. Ele lhe entregou p?o e café. Nati comeu em silêncio, sentindo o olhar hostil das outras mulheres, mas Zack apenas lhe deu um aceno de cabe?a.
— Acho que agora tudo está no devido lugar — disse Zack, abrindo um mapa sobre uma pedra. Ele apontou para uma rota que levava ao País Poliedro, a cerca de vinte quil?metros dali.
— Você enlouqueceu? — gritou K. — Está mostrando nossa rota para ela?
Zack a ignorou.
— Nati, você será nossa guarda de retaguarda. Sua fun??o é cuidar do Menino. Fique sempre com ele.
Lyra e Mira levantaram-se de um salto.
— Você está maluco! Como pode deixar nosso filho com essa maluca?
K soltou uma risada amarga.
— Você é um otário, Zack. Acha que a vida é um jogo?
Zack come?ou a rir. Uma risada genuína, leve, como se estivesse se divertindo com o caos ao seu redor. O Menino, vendo a alegria do pai, come?ou a rir junto. Nati observava a cena, confusa. Zack parecia ler seus pensamentos, e seu olhar frequentemente descia para a Black Moon em suas costas — a fonte de seu poder e do medo que ela sentia.
Zack levantou-se e aproximou-se de Nati para trocar seus curativos.
— Os homens dele est?o nos observando desde ontem — disse Nati em voz baixa. — Eles n?o atacaram ainda.
— Eu sei — respondeu Zack calmamente. — Você os trouxe com você enquanto fugia. Eles chegaram junto com você.
Nati baixou a cabe?a, a culpa pesando em seus ombros.
— Eu sinto muito... eu n?o sabia a quem pedir ajuda. Eu ia te contar que...
— N?o precisa falar, Nati — interrompeu Zack. — Você n?o me deve nada. Eu fa?o isso porque eu quero.
Nati come?ou a chorar silenciosamente, pedindo desculpas por trazer tanta desgra?a para o grupo. K, Lyra e Mira, ao ouvirem o solu?o quebrado da general, sentiram o peso daquela vulnerabilidade e desviaram o olhar, o ódio dando lugar a uma desconfortável empatia.
Zack olhou para a floresta vermelha. Ele podia sentir as centenas de soldados de Ygon ocultos entre as árvores. Eles n?o atacavam por medo — medo do Rei do Horror e de seu grupo de elite.
— Ele está vindo, Zack — sussurrou Nati, tremendo. — O General M?o Negra. Eu sinto a presen?a dele. Quando ele chegar, este lugar vai virar um inferno.
Zack olhou profundamente nos olhos de Nati.
— Você quer ser salva?
Nati n?o respondeu. O silêncio se arrastou. Zack levantou-se abruptamente.
— Vamos embora, pessoal. Deixem ela aí.
A rea??o foi inesperada. Até K e as outras ficaram desconfortáveis com a frieza súbita de Zack. Ele come?ou a caminhar em dire??o à fronteira sem olhar para trás. O Menino, porém, parou diante de Nati.
— Você quer ser salva? — perguntou o garoto, repetindo a pergunta do pai.
Nati baixou a cabe?a, as lágrimas caindo na terra vermelha. Ent?o, com uma voz trêmula que carregava todo o seu desespero, ela gritou:
— ME SALVA!
O Menino sorriu e gritou para a figura que se afastava:
— PAI!
Zack parou instantaneamente. Ele se virou, sua aura explodindo em uma press?o esmagadora que fez as árvores ao redor gemerem. Ele sacou a Black Moon, a lamina negra pulsando com uma sede antiga. Zack olhou para a floresta, para os soldados ocultos, e ent?o jogou uma moeda de ouro para Nati.
Nati pegou a moeda no ar e sorriu, entendendo o significado do gesto. Ela jogou a moeda de volta para Zack, que a pegou com um movimento fluido.
— Contrato feito, Nati — disse Zack, seus olhos negros brilhando com uma luz letal. — O Ca?ador dos Olhos Negros está ca?ando.
**FIM DO CAPíTULO**

